"Nosso Jardim"
Texto retirado de "O
Centenário" - Março / 1990
c h i n h o
"(...)Nosso jardim... ali se cultivavam e
se cultivam flores e plantas ornamentais. Em outros tempos ele era circundado
por ciprestes, árvores resinosas sempre verdes, com um perfume original.
Havia portões para se nele entrar. No centro, o coreto, onde a nossa
sempre lembrada banda apresentava vibrantes retretas. Também o repuxo,
por onde a água se elevava às alturas em jacto contínuo."

(A
estátua do Coronel Gaspar foi inaugurada no dia 23 de julho de 1916)
"A estatua vigilante do respeitável Cel.
Gaspar, não tão vigilante assim, de costas para o jardim,
de frente para a igreja, vivia alheia aos arroubos amorosos dos pares que
, a seu lado, sussurravam frases comoventes de amor no banco A.M.A., doação
do seu cunhado e duas vezes genro, Antônio Machado de Abreu, o popular
Tonico Machado."

"Não era permitida a presença de
menores de dezoito anos nas ruas, depois das vinte e duas horas. Havia
um soldado preto, alto, magro, sempre sorridente, de nome Tobias, vindo
de Caxambu, que fazia cumprir, da maneira mais simpática possível,
as ordens do juizado. (Na época, o juiz era Antônio Geraldo
de Almeida e o promotor, Francisco Barbosa de Rezende). Dadas as dez badaladas
na igreja matriz, vinha ele diante de cada grupo de rapazes e dizia amigavelmente:
“Olá, já tomou seu toddy?”. Isto porque, à noite,
antes de irem para as respectivas casas, era costume de quase todos os
jovens passarem pelo Bar Quitandinha e tomar o seu saboroso toddy. Esse
“Olá, já tomou seu toddy?” era um convite ou uma intimação
diplomática para que os menores se recolhessem."
"Em nosso jardim suspenso, o ponto de encontro
dos casais de namorados. Pelas ruas laterais vinham de um lado, os rapazes.
Do outro, as moças. Encontravam por duas vezes a cada volta completa,
dirigindo uns aos outros olhares arrebatados. Namorar, nos velhos tempos,
consistia em apenas olhar timidamente, à distância, a pessoa
amada. Conversar lado a lado só acontecia quando o jovem casal já
assumira um compromisso mais sério um com o outro. Assentarem juntos,
no mesmo banco, era sinal de que ambos estavam com firmes propósitos
matrimoniais.
Dois postes havia para iluminar o recinto. O
último banco era, por isso, bem escuro e, assim sendo, um convite
para os namorados mais ousados que lá iam tirar as suas casquinhas.
Atrás dos arbustos, muita sujeira acontecia, quer de ordem fisiológica
e - pasmem! - também de ordem moral. Uma vez ou outra, fato raro,
acontecia um escândalo atrás dos ciprestes. Por essa razão
foi que Dona Marianinha pediu ao Prefeito da época, Gaspar de Paiva
Magalhães, de saudosa memória, que cortasse os ciprestes.
Foi prontamente atendida. Pediu, também, que iluminasse as escuras
escadas de uma das entradas do jardim suspenso. As lâmpadas foram
colocadas. Ali as moças pararam de se sentar nos colos de seus namorados.
O jardim hoje é tão outro.
Quantas histórias de amor ali nasceram
e desabrocharam. Quantos sentimentos de afeição profunda
brotaram às margens de seus canteiros. Quantos corações
palpitaram no enlevo de um suave encontro. A pessoa amada, os sonhos, as
fantasias, as ilusões, as promessas, as idéias quiméricas.
Outras tantas passagens efêmeras que , no entanto, deixaram imensas
saudades.
Jardim Suspenso, não o da Babilônia,
mas de Pedralva. Também uma das maravilhas, que vibram, ontem, hoje
e sempre, em nossos corações."